O que é que leva alguém a parar…?

Hoje quero falar daquilo que leva alguém a parar de fazer algo. Principalmente, algo que se pratica desde que somos crianças, e é também praticado pelas pessoas que nos são mais queridas e mais próximas. O que é que será que leva alguém a parar de comprar peles/pêlos, a deixar de comer carne, de beber leite, de comprar produtos testados em animais…
Creio eu, que aquilo que nos faz parar é o conhecimento aliado à humildade perante as outras formas de vida.
Detalhando o primeiro ponto, o conhecimento é a porta de entrada para uma nova maneira de estar na vida, completamente diferente da anterior; e este ciclo tende a acontecer inúmeras vezes. À medida que vamos tendo conhecimento de algumas coisas, vamos estando conscientes das consequências desses atos. Se aliarmos a consciência à humildade, isto é, se não nos considerarmos maiores ou melhores do que o outro, vamos tender a cessar os comportamentos que consideramos tóxicos, desadequados, desumanos…
Temos várias razões para parar de ingerir carne, sejam ambientais, morais ou até mesmo pela saúde; e o processo é longo, normalmente não se acorda no dia seguinte e se prepara um cardápio vegano para o resto da semana, do mês e do ano, segue-se tudo à risca e pronto. Normalmente é um processo, vamos eliminando a carne quando podemos escolher o que comer, e quando estamos em família acabamos por ingerir carne. De seguida, vem o processo de dizer aos outros que não queremos mais ingerir carne ou peixe, e começa toda a logística dos jantares de família, onde se define quem cozinha o quê e parece tudo muito mais trabalhoso porque existe alguém que não vai comer o mesmo.
Não importa, na verdade, se no primeiro ano só 80% das refeições foram vegetarianas e 60% veganas. Se no primeiro ano, for possível comer quase sempre sem carne ou peixe, e pelo menos metade das vezes sem ovos, queijo, leite ou iogurtes é ótimo! Estamos muito melhores do que no ano anterior e isso é excelente!
A pressão às vezes é grande, quer por parte da família quer por parte da comunidade vegetariana/vegana. A família por vezes não compreende por que se deixa de comer carne, e chegam até a afirmar que teremos problemas de saúde. A comunidade vegetariana (não sempre, não todos, mas alguns…) julga muitas vezes quem demora a transitar para uma alimentação vegetariana. E a comunidade vegana quer muito que os vegetarianos deixem os ovos, o leite e afins porque sabem a crueldade da indústria dos mesmos.
Esta pressão não pode afetar o nosso bem estar, e a expressão de que “deve evangelizar-se pelo amor e não pela força” faz todo o sentido, aqui, pelo menos. Quanto mais criticamos quem demora a transitar, quem come vegetariano a semana inteira e no fim de semana come um hambúrguer de frango, estamos consequentemente a afastar a pessoa de adquirir mais conhecimento. E, pelo menos no meu caso, aquilo que me fez ser vegetariana, foi o conhecimento das várias indústrias, do impacto no ambiente, o auto-conhecimento também é fundamental. Só chega a ser vegetariano quem o é pelas razões certas, podemos fazer uma comparação com as dietas: quem faz dieta pela saúde, quem escolhe ser melhor, ter mais energia, pelo bem estar, por viver mais, é quem consegue resultados; quem faz dieta pelos abdominais no verão, vai frustar-se e desistir pelo caminho. Paralelamente, quem quer seguir uma alimentação vegetariana porque a própria pessoa escolheu, porque a própria pessoa pensou, estudou e optou, vai sê-lo durante muito tempo e eventualmente vai ser vegana num futuro (não tem que ser necessariamente um futuro próximo). Quem diz seguir uma alimentação vegetariana porque está na moda, ou porque quer impressionar o parceiro que também é vegetariano, normalmente não são boas razões, e quando chegar a altura de escolher o que comer numa situação de desenrasque, vão existir uns nuggets de frango ou uns pastéis de bacalhau que a pessoa vai querer escolher comer; vai ser como alguém que está numa dieta e quer muito um chocolate.
Os motivos são fundamentais para quem quer mudar de vida. Mudar de vida pelas razões certas, razões que nós encontrámos em nós mesmos, validamo-las e apoiamo-las.
Não porque está na moda, não porque somos pressionados ou julgados, não porque queremos impressionar.
Este pensamento é válido para outras áreas da vida, e, pelo menos para mim, é aquilo que me leva a conseguir ser aquilo em que me quero tornar, ou o objetivo que quero atingir.
Portanto, creio que quem já transitou para uma alimentação vegetariana ou vegana deve informar e apoiar quem está numa fase inicial, nunca o contrário. Não se pode obrigar alguém a ser o que não é, a mudança tem de surgir de dentro, o conhecimento, por outro lado, pode ser dado, com respeito.
















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