Porque não usar enforcador

Este texto foi revisto pela treinadora de cães com metodologia positiva Eneida Cardoso, da ConectaCão e teve em consideração a opinião de dois médicos veterinários distintos.
Em primeiro vamos perceber o que é um enforcador ou uma coleira estranguladora. Não são necessários muitos esclarecimentos, porque o nome diz tudo, mas, é uma coleira que estrangula o cão, assim que ele tente avançar numa direção que o dono não queira. Existem dos formatos mais impiedosos, às bonitas guias unificadas.



Então, antes que exista um despejo de ódio sobre quem usa enforcador e se tenha desde já ofendido pelo título, eu fui ver a suposta maneira correta de usar um enforcador. Gastei cerca de meia hora, e basicamente aprendi que o enforcador afinal não serve para enforcar (o nome de coleira estranguladora afinal é só para assustar) e o que é suposto acontecer é o cão mandar puxões intercalados na trela e voltar para trás, ou seja, não existir uma tensão contínua na trela, porque isso seria enforcar; já enforcar intermitentemente não é considerado enforcar. Sentem a lógica? Eu também não.
Eu nunca usaria ou sequer equacionei usar um enforcador, parece-me cruel. Mas, isso era só a minha opinião. Depois que tive o meu primeiro cão, o Ricky, obviamente fui procurando mais sobre peitorais, coleiras, peitorais anti-puxão… Mas não deixei de ver inúmeros cães com os estranguladores, e comecei então a estudar mais sobre o assunto, e as razões que a ciência apresenta para não usar o enforcador.
Em primeiro, muito importante, uma coleira estranguladora nunca deve ser usada sem supervisão, existem relatos de cães que morrem enforcados porque ficaram presos em alguma coisa, e quando um cão se sente preso, tenta soltar-se, e neste caso, enforca-se. Pode acontecer o mesmo com uma coleira normal, mas neste caso, é mais provável que o cão vá a óbito.
As razões que vou enumerar a seguir, foram colocadas pelo terapeuta de cães Bruno Leite, em parceria com o blog e canal Tudo Sobre Cachorros, foi apartir desta playlist que me tornei ainda mais curiosa sobre o assunto, e é por essas mesmas razões que tento alertar as pessoas para o uso do enforcador. Não sou treinadora, nem terapeuta, nem veterinária, mas todas as razões aqui apresentadas são sustentadas em bases científicas, e uma boa compilação desses estudos está presente no livro Dog Sense ou Cão Senso (em português); ainda não adquiri o livro físico, mas está na minha wishlist 🙂
Questão Social
Os cães têm vindo a aproximar-se cada vez mais dos humanos, e, felizmente, hoje em dia fazem já parte de muitas famílias. É então construída uma relação de confiança e de cooperação com os membros da família, quando existe um bom canal de comunicação – ou seja, quando conseguimos comunicar pacífica e eficazmente com o nosso cão. Não através de barulhos fortes, de sustos, de spray d’água na cara do cão e de enforcamento. Os cães relacionam-se entre si sem recorrer à força. E isso é algo que têm em comum com os humanos. Fora situações de disputa/sobrevivência, os cães e os humanos não usam a força como base de comunicação. Então, se as relações cão-cão e humano-humano não usam a força, porque é que a relação humano-cão tem que usar a força? E porque é que o enforcador é visto como a única solução para cães que puxam à trela?
Quando um cão se sente enforcado, vai suspender o seu comportamento, no entanto, a suspensão desde comportamento é momentânea, e os donos começam a achar que o enforcador efetivamente resulta e o cão obedece. Obedece, porque não tem outra alternativa, não porque aprendeu algo, e é esta a diferença mais importante!
Quando treinamos o nosso cão sem recorrer a métodos punitivos, o cão vai obedecer-nos porque aprendeu que se tomar determinada atitude, algo bom advirá desse comportamento, e não vai obedecer pelo medo, vai obedecer pela motivação e bem–estar.
Aqui, o Bruno Leite fez uma analogia bastante interessante, com as crianças e com o ensino. Antigamente, quando uma criança dava um erro sintático numa composição da escola ou errava a tabuada, levava literalmente com uma régua ou com uma cana; felizmente evoluímos e o professor que o fizer, pode ter que suspender as suas funções. Portanto, evoluímos para uma sociedade que concorda que a educação não deve ser dada pelo recurso à força e ao medo.
Com os cães, é a mesma coisa, não é necessário usar a força. Diferenciando os comportamentos agradáveis dos desagradáveis, conseguimos com a meodologia positiva, incentivar o cão a optar por comportamentos que terá boas consequências.
Questão Comportamental
O comportamento dos cães baseia-se em associações. Todos sabemos que ao pegar na trela eles ficam de rabinho a abanar, isso é porque eles gostam de passear e associam o passeio à trela. A isto, Ivan Pavlov chamou de condicionamento clássico, que no caso fez um estudo onde observou que os cães associavam um barulho à hora de comer, e portanto, salivavam na expetativa de serem alimentados.
Esta associação ocorre também no sentido contrário, isto é, os cães associam também determinados cenários a sentimentos negativos. Ou seja, se o cão for na rua a passear, e vir um cão com o qual pretende interagir, direciona-se no sentido do cão e o enforcador aperta ou leva os chamados “trancos” na trela, que é quando os donos começam a puxar a trela com força e rápido para chamar o cão à atenção; estes acontecimentos criam desconforto ao cão, e portanto, sentimentos negativos e stressantes. Com a persistência destes atos, estamos a transmitir ao nosso cão que interagir com outro cão é algo que leva a que ele seja punido, é algo mau, vai criar mais stress e medo no cão, e pode mesmo começar a tentar avançar noutros cães porque associou o cenário (outro cão na rua) à punição. O mesmo para bicicletas, carros, skates, patins, … qualquer cenário.
Estas consequências são precisamento o contrário do que o passeio devia ser, um momento de felicidade, de tranquilidade e de descoberta. O cão passa então a ver o dono como um agente punitivo e não como um agente recompensador. Assim que o cão se habituar ao enforcador, ele vai continuar a puxar, então devemos ensinar o cão a estar tranquilo e confortável com os estímulos da rua para que ele não fique demasiado curioso, excitado, brincalhão ou até nervoso com eles. Através da metodologia positiva podemos conseguir redirecionar a atenção do cão para nós, para que ele se distraia de um estímulo que o deixou mais entusiasmado, por exemplo, e não criar mais uma associação negativa (punição) a um estímulo que já deixa o cão fora do seu estado de tranquilidade.
Mas as pessoas vão dizer “o meu cão gosta de mim e gosta de passear e usa enforcador”, ok, ele gosta de si e de ir passear apesar do enforcador, o que nos leva ao ponto seguinte.
Questão Emocional
Frederic Skinner concorda com Pavlov, que os cães aprendem por associação, no entanto, o que permite que um comportamento perdure no tempo – se mantenha constante – são as consequências desse mesmo comportamento. Ou seja, se o cão teve um determinado comportamento e ganhou algo bom (um biscoito, uma festinha, uma brincadeira) é provável que o cão volte a repetir determinado comportamento, se não ganhou nada, é provável que o comportamento tenda a diminuir; se o cão foi punido, o comportamento vai ser suspendido momentaneamente, mas a longo prazo, o comportamento não será cessado.
Quando um cão é punido diante de determinados estímulos (pegando no exemplo anterior: um cão na rua), o cão vai interiorizar que sempre que acontecerem determinados estímulos, a punição vai ocorrer novamente, e o cão vai fazer tudo o que puder para fugir a essa punição, criando um comportamento de esquiva, sendo então misturado como “obediência”. Este comportamento de esquiva, gera ansiedade, porque o cão prevê a punição e pretende evitá–la. Usar o enforcador é o mesmo que punir o cão por querer interagir, cheirar e divertir-se na rua, e vai a longo prazo gerar cada vez mais ansiedade, e essa ansiedade poderá trazer doenças psicossomáticas e encurtar a vida do cão. É do senso comum, quem vive constantemente sob stress, tende a ter mais problemas de saúde. Gostar do nosso cão, é querer que ele viva o maior período de tempo possível, e é consequentemente não fazer uso do enforcador.
“Mas ele gosta de passear mesmo usando o enforcador!”, Skinner responde a isto também, passear e explorar é algo intrínseco aos cães, conhecer novos ambientes, cheirar e conviver, e é por isso que ele fica feliz quando é hora de passear. Nesse momento ele vai sentir o impulso para passear, e logo de seguida, chega o medo de ser punido, gerando um sentimento de conflito. Esse sentimento gera stress, e o que cada tutor deve querer é um cão equilibrado, não stressado e não ansioso.
Em última instância, Skinner fala também do contra controlo, que é o momento em que o cão nos tenta ludibriar, ou seja, quando o enforcador estiver mais solto, ele vai puxar de novo, ou quando o dono está distraído, ele vai tentar escapar de um ambiente de desconforto e punição. Quando o cão tem este tipo de comportamento e é punido para o reprimir, em última instância, o cão vai tentar libertar-se e redirecionar o stress e a mordida ao próprio tutor.
Questão de Saúde
Como disse, não sou veterinária, mas o problema mais frequente é o colapso da traqueia por conta dos puxões fortes no enforcador. E muitos dirão “pois, mas isso é para quem não sabe usar enforcador”. Então, se o objetivo é ensiná-lo a não puxar, porque é que não se usa a metodologia positiva, sabendo dos benefícios provados cientificamente? Por que temos de enforcar o nosso cão se já está provado que métodos punitivos são piores e arcaicos?
Continuando, no pescoço passam artérias muito importantes para o cérebro, se o cão puxar continuamente, o cão pode vir a ter um AVC por conta da falta da passagem correta do sangue. Com cães braquicefálicos (focinho achatado), os olhos podem sair da orbita ocular.
Os “trancos” na coleira e no enforcador podem causar problemas nas vértebras cervicais.
Em último caso, pode causar feridas no pescoço, principalmente com as coleiras estranguladoras de picos.
Por último, o arrefecimento do cão é feito maioritariamente pela respiração, ao obstruirmos esse canal, pode levar o cão a hipertermia e a óbito, sendo muito mais preocupante nos cães braquicefálicos.
Questão Lógica
A punição não ensina um comportamento, apenas tenta reprimir/retirar um comportamento do repertório do cão. Portanto, não é educar, educar é adicionar novos comportamentos ao leque de escolha do cão. Então concluímos que punir e reprimir são o exato oposto de educar, e portanto, o enforcador não é educação.
Mais um paralelismo com o ensino de crianças: quando queremos ensinar uma soma a uma criança, ensinamos que 2+2=4 e pronto, não ensinamos que 2+2 é diferente de 0, 1, 2, 3, 5, 6, 7,… Portanto nós ensinamos as crianças pelos acertos, e não pelos erros! Então, ensinar pelo enforcamento ou punição, é tentar ensinar pelos erros, tentando passar ao cão aquilo que o dono não quer, mas não ensina aquilo que o dono pretende, por preguiça muitas vezes. Então, o reforço positivo, ensina o cão, aumentando o leque de comportamentos e fazendo a associação de determinada ação a uma recompensa, a um sentimento agradável. Então, sem suprimir uma ação indesejada (como puxar à trela), vamos ensinar o cão que apesar de ele poder puxar desenfreadamente, escolherá não o fazer, porque com tempo, paciência e consistência, o cão vai associando um passeio tranquilo a uma recompensa, a algo positivo. Ou seja, vamos ensinar ao cão, que se ele escolher não puxar, poderá ter uma recompensa, apesar de ele saber que pode puxar. E isso leva a que não seja necessário o enforcador ou estrangulador para nada. É uma questão de treino, de educação, e não depende da raça, só depende do dono.
Dica: se usam o enforcador porque não conseguem controlar o vosso cão na rua, tentem um peitoral anti-puxão ou um profissional que vos ajude a tranquilizar o vosso cão na rua, um profissional que adote metodologias positivas.
Aqui podemos ver um artigo que fala sobre danos graves no cérebro de um German Shepherd ou Pastor Alemão no uso de uma coleira estraguladora.
Aqui podemos conhecer mais sobre o trabalho e estudo do Bruno Leite, principal fonte deste post, ao qual reconheço uma enorme credibilidade por acompanhar o trabalho e resultados com vários cães, há já vários meses.
Aqui podemos ter acesso a uma playlist de 5 vídeos, com o Bruno Leite, que aborda 5 razões para não usar enforcador.
Aqui é uma comparação sobre métodos punitivos, no caso, coleira eletrónica, e métodos de recompensa.


















Sem comentários